Suzane G. Frutuoso

Sabe aquele ditado que diz “o não você já tem”? Com esse espírito, Candice Pascoal traçou todos seus caminhos desde menina. Como convencer os pais de que merecia e deveria fazer um intercâmbio. Ou quando não se deu por vencida ao não passar em processos de seleção para trainee no Brasil e se candidatou a programas em empresas nos EUA. Foi aceita e logo, aos 23 anos, já era diretora internacional de um selo de world music. Hoje, aos 38 anos, ela é fundadora e CEO da Kickante, plataforma de financiamento coletivo (crowdfunding) voltada especialmente para projetos brasileiros.

“Empreendedor precisa dar a mínima para o ‘não’ e persistir no objetivo, absorvendo a rejeição como parte do processo, vendo cada ‘não’ como uma clareza do caminho a seguir. O ‘não’ é o ‘sim’ atrasado. O segredo quando se ouve um ‘não’ é mudar a estratégia até que venha o ‘sim’. Garanto que se persistir sem teimar, ou seja, realinhando seus planos e expectativas, o ‘sim’ virá”, disse ela em entrevista a Mulheres Ágeis, pouco depois de lançar o livro Seu Sonho Tem Futuro. A obra não só nasceu com financiamento coletivo como pretende ajudar outras pessoas a concretizar seus projetos, inclusive com um prêmio (leia ao final do texto).

Candice, baiana da gema de Juazeiro que mora em Amsterdã, na Holanda, com o marido e dois filhos, destaca também que tudo bem errar durante a trajetória empreendedora. Faz parte do processo. “Considerar o erro um estado mental e não condição pessoal de fracassado é um grande avanço. Isso permite à pessoa desapego ao erro e a rápida recuperação da situação.”

Seu Sonho Tem Futuro é realmente didático e com exemplos interessantes que ajudam a organizar melhor as ideias para que se transformem em negócios. Com o mérito de quebrar conceitos e permitir ao leitor se sentir bem com o ato de tentar. “Sinto que a quantidade de jargões, palavras em inglês, processos normais com nomes complicados servem apenas para elitizar algo que qualquer um, em qualquer esfera social ou idade, deveria se sentir confortável a fazer: tirar seu projeto do papel, viver seu sonho, empreender. Sou contra qualquer tipo de elitismo. Ele apenas divide a sociedade e limita o poder e a possibilidade, mais uma vez na mão de poucos. Ninguém precisa de palavras americanizadas ou termos novos para ser bem-sucedido no mundo do empreendedorismo.”

Filha de um médico filantropo, sempre desejou uma carreira com chances de correr o mundo. Formada pela Universidade de Salvador em Administração de Empresas com foco em Comércio Exterior, trabalhou na Putumayo World Music, um dos maiores selos de world music do mundo, na qual chegou a vice-presidente do mercado internacional, em Nova York. Após cinco anos nessa função, pediu demissão e foi trabalhar com arrecadação de fundos para ONGs como Médicos sem Fronteiras,WWF, Handicap Internacional, Cruz Vermelha, Unicef.

Desde a criação, a Kickante já lançou mais de 72 mil campanhas e captou mais de R$ 57 milhões. A empresa detém o recorde de maior arrecadação da América Latina: R$ 1.006.990,95 captados para a campanha Santuário Animal. “Em quatro anos de operação, já conquistamos US$ 4 milhões em aportes de investidores-anjo. Todos os projetos são brasileiros”, diz Candice, que atua com mais sete sócios e seis funcionários que se dividem entre o escritório sede, em São Paulo, e home office na cidade de Salvador, além de Portugal e Holanda.

Como surgiu a ideia do livro Seu Sonho Tem Futuro, que já entrou para a lista do mais vendidos no Brasil?
Senti necessidade de focar no capital humano e nos talentos desperdiçados no Brasil. Seja por estarem sem emprego ou mal-empregados, trabalhando com o que não amam.

Desde o começo, à ideia do livro se juntava a ideia do prêmio para quem fotografar a capa revelando um sonho que deseja concretizar?
Sim! Temos tanto interesse em disseminar a alternativa do financiamento coletivo que resolvemos não só ensinar a transformar o conhecimento adquirido pelo livro em um novo empreendimento, mas também oferecendo o prêmio de R$ 35 mil para viver seu sonho, seja qual for: abrir uma empresa, ajudar o próximo, visitar a Europa ou o Vale do Silício, melhorar o currículo ou qualquer outro objetivo de vida (veja no fim da entrevista como participar). O mais especial desse prêmio é a visibilidade que vem trazendo aos projetos dos leitores participantes. Uma biblioteca recebeu uma doação grande de livros.

Há 15 anos, o financiamento coletivo parecia algo distante da realidade das pessoas. Inclusive gerando dúvidas sobre honestidade em relação à aplicação do dinheiro. O que mudou na sociedade para o crowdfunding se tornar uma parte da economia e do investimento para inovação, empreendedorismo, projetos culturais e sociais?
Acredito que até bem mais recentemente, em 2013, quando fundamos a Kickante, era de fato um potencial pouco explorado pelos empreendedores. Hoje já é realidade. Ouso dizer que temos uma grande parcela de responsabilidade na popularização do crowdfunding, uma forma 100% segura de qualquer pessoa captar recursos e mudar de vida. Digo isso porque a Kickante se consolidou como a maior plataforma de financiamento coletivo do país logo em seu segundo ano de vida, ultrapassando todas as demais plataformas tanto em campanhas lançadas quanto em valores arrecadados ou em quantidade de contribuidores no ano. Em 2015, a Kickante manteve essa liderança e emplacou campanhas em todos os estados brasileiros. Inovamos também ao introduzir no Brasil o modelo de Campanhas Flexíveis. O usuário recebe todo o valor arrecadado no término da campanha, mesmo que não tenha atingido a meta estabelecida. Ao observar a enorme procura dos empreendedores por nossos serviços, posso dizer com segurança que o mercado entendeu o poder transformador do financiamento coletivo. É uma pré-venda sem risco ou custo inicial, contando com uma equipe de experts na plataforma gratuitamente.

Em quais áreas são mais comuns os projetos que ganham forma por meio da Kickante?
Das 72 mil campanhas lançadas de 2013 até hoje, aproximadamente 14 mil foram usadas para negócios. Acredito que os empreendedores tenham descoberto as vantagens do financiamento coletivo. Prova disso é a arrecadação alcançada nesses quatro anos apenas por projetos criados por empreendedores: R$ 11 milhões. Outros números: 30% das campanhas são referentes a causas sociais, 30% relacionadas a artes e 40% para empreendedorismo e iniciativas diversas, encampadas por pessoa física ou jurídica.

Aliás, onde e como surgiu a ideia de crowdfunding?
Quando eu trabalhava na indústria da música, percebi a queda de diversas empresas do ramo por não saberem lidar com o mundo digital. Era uma época em que eu realizava também um trabalho de consultoria de arrecadação de fundos para ONGs como Médicos Sem Fronteiras, Cruz Vermelha e Anistia Internacional. Naquele momento, vi que tudo era feito com um custo enorme, o que acabava inviabilizando a arrecadação em massa para a maioria das instituições. Foi aí que identifiquei o potencial do crowdfunding. Empolgada com o poder transformador e social dessa ferramenta, decidi investir no segmento.

O que, na sua opinião, faz um projeto dar certo e outros não?
O que determina o sucesso do projeto, independentemente da categoria que faz parte, é a garra e dedicação do empreendedor. Para se captar bem via crowdfunding é necessário esforço de divulgação e de relacionamento. No livro, disponibilizamos os endereços de dois e-books gratuitos para que qualquer pessoa tenha sucesso com o crowdfunding. O segredo está em uma história bem contada. O autor da campanha deve mostrar para as pessoas porque elas devem apoiar sua campanha. É preciso explicar a trajetória do projeto, sua jornada até aqui e dizer o que o torna tão importante para a sociedade. Os kickadores costumam ajudar pessoas e ideias em que acreditam. Uma boa dica é ser conciso e não se esquecer de incluir fotos ou até mesmo um vídeo. Para ajudar os autores ao longo do caminho, a Kickante oferece também um Baú de Ideias, informações no Blog da Kickante e do SlideShare.

No livro, ao contar sua história desde menina, decidida a fazer um intercâmbio e a conseguir estágio em uma grande empresa, fica claro que entre suas características estão a resiliência e a persistência. Essas são características fundamentais para o empreendedor? Na sua opinião, nascemos com essas características ou é possível desenvolvê-las?
São características imprescindíveis e possíveis de serem desenvolvidas. O empreendedor precisa exercitar o dar a mínima para o ‘não’, absorvendo a rejeição como parte do processo. O ‘não’ é o ‘sim’ atrasado. O segredo é não mudar a estratégia até que venha o ‘sim’. Garanto que se persistir sem teimar, ou seja, realinhando seus planos e expectativas, o ‘sim’ virá. Em uma palestra na Europa, um líder que admiro muito, o Patrizio Paoletti, fundador da fundação que leva o seu nome, me fez a seguinte pergunta: qual a diferença entre persistir e teimar? Na hora, me veio à mente a imagem de uma pessoa andando em círculos, sem parar. Uma pessoa aparentemente focada. Sem dúvida, ela pode estar determinada, mas o fato é que o seu caminho circular, percorrendo a mesma linha incessantemente, não a levará a lugar algum. Teimosia é isso. O teimoso não desiste, mas anda em uma rota que não o leva à meta nenhuma. Ele segue os mesmos passos já dados e não observa as mudanças necessárias ao seu redor.

Qual a diferença do persistente?
O persistente tem foco no objetivo final. Ele sabe aonde quer chegar e, para conseguir isso, faz as mudanças e os ajustes necessários ao longo do trajeto. Sem ego, sem apego às suas ideias “geniais”. Com humildade para aprender e ciente de que o caminho do sucesso tem erros e acertos. Ciente de que sempre terá quem o apoie e quem o desestimule. Entendendo que existe gente do bem e outras nem tanto. O persistente tem bons colaboradores, ideias que podem ser quebradas e conceitos que precisam ser repensados. Ele foca no resultado final, não tem medo de se reinventar quantas vezes for preciso para sempre continuar, pois sabe que chegará onde quer. Teimosia equivale a cumprir tarefas. Persistência é visão.

Quando se deu conta de que ajudar outras pessoas a tirar suas ideias do papel também era um negócio?
Com tanta interação com artistas, empreendedores, empresários e idealizadores ao redor do mundo, percebi que é possível (e necessário) canalizar o fluxo de capital disponível no mercado para ações empreendedoras que vão gerar lucro e melhorar a vida de uma grande quantidade de pessoas. Dentro da ideia de que o novo bilionário não é o que ganha 1 bilhão e, sim, aquele que impacta positivamente 1 bilhão de pessoas.

Como você lida com os momentos de frustração, de flutuações tanto econômicas quanto emocionais da vida empreendedora?
As coisas dão errado antes de darem certo porque o empreendedor inova. E o inovar não tem caminho certo, traçado. Para empreender, tem que se sentir confortável com o desconhecido e com as pedras no caminho, que são muitas. Lembro quando me formei em Administração e Comércio Exterior. Eu queria entrar no processo de trainee das multinacionais que chegavam ao Brasil na época. Apliquei para todas, não passei em nenhuma. Aparentemente naquela época, os programas de trainee não contratavam pessoas fora do eixo Rio-São Paulo, e lá estava eu, adolescente, baiana da gema, com ambições de gente grande. Eu me perguntava o porquê, já que tinha experiência internacional, falava quatro idiomas, boa formação e principalmente muita vontade. Mas persisti por outros lados: fui direto à fonte. Apliquei para estagiar nos Estados Unidos. Pouco tempo depois, comecei a estagiar em uma empresa em Nova York. Assim nasceu minha longa trajetória internacional: do ‘não’ e da persistência.

Falhar é importante?
No mundo dos negócios as decepções estão tão presentes que foi criado, em 2012, no México, um movimento global chamado Fuckup Nights, no qual pessoas compartilham publicamente suas histórias de fracasso. É um TED ao avesso. No Fuckup Nights seu maior erro é sua única glória. Milhares de pessoas participam desses eventos em mais de 150 países contando seus maiores fracassos. O empreendedor precisa entender que errar é algo esperado e até mesmo celebrado. Começar a considerar o erro como um estado mental e não condição pessoal de fracassado é um enorme avanço. Isso permite à pessoa desapego ao erro e a rápida recuperação da situação.

Outra boa história que chama a atenção no seu livro é que, mesmo quando você era funcionária em empresas, já tinha uma postura de intraempreendedora. Ser intraempreendedor é um bom sinal de que uma pessoa terá capacidade para empreender?
É um bom sinal, mas não basta. Para empreender você precisa de acesso a capital para financiar a longa jornada de tirar um projeto do papel. Precisa também de muito equilíbrio emocional, pois a jornada empreendedora tem altos e baixos, em um ambiente já de bastante estresse. Ser intraempreendedor em uma grande empresa mostra agilidade e organização mental, características importantes para levantar um projeto. Mas não conta com o elemento instável – aquele ambiente das startups com alta vulnerabilidade financeira e do mercado, um ambiente em que o empreendedor precisa se reinventar constantemente, sem muita garantia para o futuro. É uma ultramaratona debaixo de uma chuva de pedras.

Uma das coisas de que mais gostei no seu livro é o não uso de termos que estão na moda quando se fala de empreendedorismo e startups. E que podem afastar as pessoas da ideia do empreendedorismo por parecer algo distante demais da realidade delas, de “não ser algo para mim”.
Fico bastante frustrada com os termos americanos adotados no Brasil, embalados para presente. Ou melhor, para venda. Empreendedorismo é colocar a mão na massa. Pronto. Tem gente na periferia mais empreendedor que o rapaz viajando para o Vale do Silício trazendo conceitos que ao invés de ajudar, muitas vezes, dificultam e prolongam uma tarefa que poderia ser fácil. Meu livro quebra conceitos e ajuda o leitor a se sentir confortável com o ato de tentar. Sinto que a quantidade de jargões, palavras em inglês, processos normais com nomes complicados servem apenas para elitizar algo que qualquer um, em qualquer esfera social, ou idade, deveria se sentir confortável a fazer: tirar seu projeto do papel, viver seu sonho, empreender. Sou contra qualquer tipo de elitismo. Ele apenas divide a sociedade e limita o poder e a possibilidade, mais uma vez, na mão de poucos. Ninguém precisa de palavras americanizadas ou termos novos para ser bem-sucedido no mundo do empreendedorismo.

Considera o Brasil um país de empreendedores?
Apesar de todos os empecilhos, ter o próprio negócio está entre os maiores sonhos dos brasileiros. Segundo o Global Entrepreneurship Monitor (GEM), levantamento realizado em vários países, esse sonho ocupa o quarto lugar na mente dos brasileiros, atrás apenas do sonho de viajar pelo país, comprar a casa própria e ter um carro. Mostra também que quatro entre dez brasileiros entre 18 e 64 anos têm um negócio ou pensam em ter um, ou seja, cerca de 52 milhões de pessoas planejam mudar o rumo da própria vida. Ou já o fizeram.

O que nos falta para alcançar o mesmo patamar de empreendedorismo de países como os EUA?
Falta principalmente se engajar em planejamento a longo prazo. Nosso povo é criativo, bota a mão na massa sim, mas tem pouco acesso a informação de qualidade sobre empreendedorismo. Pequenas e médias empresas representam 27% do PIB brasileiro, calculado em R$ 6,266 trilhões em 2016. O capital humano é enorme. Ao brasileiro nunca faltaram criatividade e vontade.

Quais são os países que mais se destacam no empreendedorismo feminino?
Sobre empreendedorismo feminino especificamente, a MasterCard fez um levantamento no início do ano, elencando quais são as nações que apoiam mais as mulheres nos negócios. Em primeiro, está a Nova Zelândia, seguida do Canadá e dos Estados Unidos. O Brasil ficou em 33° lugar, em um universo de 53 países analisados. Precisamos melhorar. E não apenas em empreendedorismo feminino. Uma empresa, país ou indústria com diversidade de raças, gêneros, idade e interesses resulta em produtos mais alinhados com a sociedade e, sendo assim, mais bem-sucedidos. Parece óbvio, e no entanto poucos seguem esse conceito.

E quais são os países considerados mais empreendedores em geral?
Foi também divulgado recentemente um ranking mundial de empreendedorismo da The Global Entrepreneurship and Development Institute (Gedi), com sede em Washington, avaliando o ecossistema empreendedor de 137 países. Analisa 14 pilares. Entre eles, capital humano, competitividade e internacionalização. Os líderes são Estados Unidos, Suíça, Canadá, Reino Unido e Austrália. Irã e Bulgária se destacaram como as nações que mais ganharam posições em relação ao ano passado, saltando 13 colocações. O Brasil está em 98°.

Dos projetos da Kickante que são concretizados, quantos são de mulheres? Sabe dizer em quais regiões do Brasil elas predominam e em quais áreas estão investindo?
As mulheres são responsáveis pela criação de 50% das campanhas da Kickante. Entre os contribuidores, 56,9% são mulheres. Desde a fundação da Kickante até hoje as mulheres já contribuíram com R$ 32,1 milhões.

Quais projetos de mulheres você destacaria que foram tirados do papel e deram certo? Quais eram os diferenciais?
Clareza no projeto, persistência na divulgação e inteligência emocional. Menciono três de áreas e anos variados. Em 2015, o livro Penteando a Vida, de Maria Vilani (https://goo.gl/bMRgfc), com poemas sobre o universo feminino; em 2016, o calendário em braile da Fundação Dorina Nowill (https://goo.gl/nxEgVS); e em 2017 o aplicativo Malalai (https://goo.gl/Ku8iQ8), com rotas para mulheres se deslocarem com maior segurança.

Você já usou a Kickante para financiar um projeto seu, como o que leva arte para crianças refugiadas?
Sim! Sou a única CEO e fundadora de financiamento coletivo que confia e acredita tanto no projeto que lança seus próprios projetos criativos via financiamento coletivo. Para minha ação humanitária na Holanda levando arte para crianças refugiadas, meus projetos fotográficos, assim como pré-lançamento do livro, faço campanhas de crowdfunding públicas e aprendo sempre muito com o processo.

Como fundadora e CEO da empresa, já enfrentou situações de machismo, de colocarem em dúvida sua capacidade?
Por crescer rápido na minha carreira profissional nos Estados Unidos, sempre fui a mais nova, a única latina e a única mulher em ambientes americanos e europeus, em que todas as pessoas trabalhando no mesmo patamar eram homens mais velhos e caucasianos. Os meus times, porém, sempre foram muito diversos. Pessoas de raças, gênero, idade, interesses e crenças completamente diferentes. Uma vez, houve um evento de uma empresa onde trabalhei em que todos os homens em cargos de liderança foram convidados para um final de semana de discussões sobre o futuro da organização. Eu, sendo responsável por 40% do faturamento anual, não fui convidada. Fiquei surpresa e bastante chateada. Afinal, avaliando de maneira crua, como sempre tento fazer, meu time estava indiretamente pagando 40% daqueles custos. Liguei para o CEO da empresa, que na época era meu chefe, e indaguei por que não fui convidada. Ele explicou que seria um guys time. Afirmou que ele tinha certeza de que eu não gostaria, pois estariam falando como guys. Expliquei que pouco me importavam o tom ou as atividades do final de semana, mas que liguei para informar que nenhuma discussão sobre o mercado internacional (que eu liderava) era permitida para a ocasião e que nenhum custo da viagem seria alocado para meu time.

A saída para lidar com situações assim é não deixar passar, então.
O que aconselho às mulheres em casos semelhantes é que voltem aos números, sejam diretas, falem de maneira pragmática e não aceitem qualquer forma de desrespeito. Focar em fatos é o melhor caminho para lidar com essas situações extremamente delicadas. Acredito que desrespeito se corta no comecinho, quando ainda parece inocente. Não permita que nada que te deixa desconfortável escale.

Lembra de mais alguma ocasião em que precisou se colocar dessa maneira?
Um chefe que costumava gritar com a gerente de marketing da empresa decidiu que era um bom momento para gritar comigo, depois de anos trabalhando com ele. Nunca o vi gritando com homens. Também reagi com fatos. Esperei ele terminar, me levantei da cadeira e falei pacientemente: “Temos uma troca que se estabelece todos os dias. Eu trabalho para você e você paga pelos meus serviços. Que este seja o último dia que grita comigo”. Ele entendeu, se desculpou amplamente, nunca mais voltou a acontecer e continuei a crescer na empresa ainda reportando diretamente a ele. Outra situação foi em uma reunião de conselho. Um dos membros falou na frente de todo o grupo, no qual eu era a única mulher, jovem e latina: “Desculpa, não consegui me concentrar na sua apresentação. Seu sotaque é muito bonito.” Eu olhei para ele, olhei para o grupo que estava sorrindo e concordando e disse: “Obrigada pelo elogio. O seu conhecimento poderá me ajudar bastante no próximo passo. Mas se não consegue se concentrar devido ao meu sotaque, certamente essa não é uma reunião produtiva. Por e-mail, o reporte vai sem sotaque. Sendo assim, você poderá colaborar melhor com o objetivo do conselho. Vou enviar o e-mail agora mesmo e peço que me responda até amanhã”. Ele respondeu, sem jeito: “Sim, claro!” Recebi seu melhor feedback e seguimos com excelentes reuniões futuras.

De que maneira enxerga a questão do movimento pelo empoderamento feminino, que ganhou força nos últimos cinco anos no mundo?
Acredito que ainda tem um longo caminho a ser traçado. Vejo com muito entusiasmo o trabalho de pessoas como Ana Fontes, da Rede Mulher Empreendedora, e sinto que quando cada mulher tomar um minuto do seu dia para promover, apoiar ou comprar produtos de mulheres, sentido-se feliz por seu sucesso, o termo de fato ganhará as ruas e impactará vidas da maneira que precisa.

Quais dicas você daria para quem deseja começar 2018 concretizando um sonho, um projeto, dando start a um negócio?
Primeiro, leia Seu Sonho Tem Futuro. Ele foi feito com esse intuito e tem a colaboração de pessoas incríveis atuando no mercado brasileiro com sucesso. Comece a anotar oportunidades de negócio ou inovações para o seu negócio existente. Grandes ideias que mudaram o Brasil e o mundo nasceram desse momento de realização pessoal. Também leio cerca de quatro livros por mês e recomendo sempre às pessoas próximas a mim a fazer o mesmo. Aconselho o empreendedor a ler além dos livros de negócios. Ler poesia, biografias, estudos científicos, revistas de cultura e filosofia. Isso nos torna completos e gera assuntos interessantes em reuniões de negócios. E recomendo, acima de tudo, a aprimorar diariamente o inglês. Não é necessário falar sem erros ou sem sotaque. Mas é necessário se comunicar. Antes de ir para o meu estágio nos Estados Unidos, quando ainda era muito jovem, eu assistia a filmes legendados mais de uma vez. Na primeira vez, lendo a legenda, e na segunda e terceira vezes, apenas treinando a escuta, sem ler a legenda. Quando soube que faria um estágio de um ano na França, passei o ano anterior escutando rádio francesa pelo computador, apenas deixando o ouvido se acostumar com a escuta. Pequenos passos e verá que com o passar do tempo o impacto fará uma grande diferença.

Para as mulheres que querem empreender, alguma dica a mais?
Comece tendo sonhos menores e vá inflando-os um pouco mais a cada dia. Eu sei que se imaginar o projeto como um todo as chances de paralisar são enormes. Falta de paciência e de um plano de crescimento constante e consistente deixam muita gente no meio do caminho. Comecei a Kickante com 21 clientes no primeiro mês, 7 no segundo, 31 no terceiro, 26 no quarto, 40 no quinto e terminamos o primeiro ano com 200 novos clientes por mês. Nossa missão, desde o começo, é de nos tornarmos o braço direito do brasileiro, ter milhões de pessoas engajadas no financiamento coletivo no Brasil. Hoje já somos mais de 1 milhão de brasileiros impactados em apenas três anos. Já pensou se eu tivesse desistido nos primeiros meses por estar vivendo uma realidade tão diferente do sonho?

Para participar da campanha do livro Seu Sonho Tem Futuro:
Basta fazer uma foto mostrando a capa do livro e postar no Instagram ou Facebook com a hashtag #seusonhotemfuturo. Com esse movimento, desejamos fazer os brasileiros falarem abertamente dos seus sonhos nas redes e usarem as ferramentas e dicas práticas do livro para serem bem-sucedidos. As três fotos mais curtidas serão apresentadas na página da Kickante para votação. A mais votada leva o prêmio. O livro é direcionado a pessoas que estão desempregadas ou trabalhando em algo que não amam e desejam mudar de vida com a abertura de um negócio. Ou, ainda, a empreendedores que já têm um negócio e precisam fazê-lo decolar. O prêmio é de R$ 35 mil.

Livros que Candice recomenda:

Founders at Work: stories of startups’ early days, de Jessica Livingston

Mulheres que correm com os lobos, de Clarissa Pinkola Estes

O melhor do mundo, de Seth Godin

Para saber mais:

www.kickante.com.br

Global Entrepreneurship Index (GEI) https://thegedi.org/global-entrepreneurship-and-development-index/

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